u, em tom incerto.
- Tem - admitiu o pai. - E os reis Targaryen também tiveram
antes dele. Mas o nosso costume é o mais antigo. O sangue dos
Primeiros Homens ainda corre nas veias dos Stark, e man-
temos a crença de que o homem que dita a sentença deve
manejar a espada. Se tirar a vida de um homem, deve olhá-lo
nos olhos e ouvir suas últimas palavras. E se não conseguir
suportar fazê-lo, então talvez o homem não mereça morrer.
Um dia, Bran, será vassalo de Robb, mantendo um domínio
seu para o seu irmão e o seu rei, e a justiça caberá a você.
Quando esse dia chegar, não deve ter nenhum prazer na
tarefa, mas tampouco deverá desviar os olhos. Um
governante que se esconde atrás de executores pagos depressa
se esquece do que é a morte.
Foi então que Jon reapareceu sobre o cume da colina à frente
do grupo. Acenou e gritou-lhes:
- Pai, Bran, venham depressa ver o que Robb encontrou! - e
depois voltou a desaparecer. Jory pôs-se ao lado de Bran e do
pai.
- Problemas, senhor?
- Sem nenhuma dúvida - disse o senhor seu pai. - Vamos,
vamos ver que velhacaria desenterraram agora os meus filhos
- pôs o cavalo a trote. Jory, Bran e o resto do grupo seguiram-
no.
Encontraram Robb na margem do rio, ao norte da ponte,
com Jon ainda montado ao seu lado. As neves do fim do
verão tinham sido pesadas naquela volta da lua. Robb estava
enterrado em branco até os joelhos, com o capuz atirado para
trás, e o sol brilhava nos seus cabelos. Aconchegava alguma
coisa no braço enquanto os rapazes conversavam em vozes
excitadas, mas baixas.
Os cavaleiros escolheram o caminho com cuidado através dos
detritos empilhados pelo rio, tateando em busca de apoio
sólido no terreno escondido e irregular. Jory Cassel e Theon
Greyjoy foram os primeiros a chegar perto dos rapazes.
Greyjoy ria e gracejava enquanto se aproximava. Bran ouviu
o fôlego sair-lhe do peito.
- Deuses! - exclamou, lutando por manter o controle do cavalo
enquanto levava a mão à espada. A espada de Jory já estava
na mão.
- Robb, afaste-se disso! - gritou, enquanto o cavalo empinava
entre suas pernas.
Robb sorriu e ergueu o olhar do volume que tinha nos braços.
- Ela não lhe pode fazer mal - disse. - Está morta, Jory.
Por aquela altura, Bran já ardia de curiosidade. Teria
esporeado o pônei para avançar mais depressa, mas o pai os
fez desmontar junto à ponte e aproximar-se a pé. Bran saltou
do animal e correu.
Também Jon, Jory e Theon Greyjoy já tinham desmontado.
- O que, pelos sete infernos, é isso? - disse Greyjoy.
- Uma loba - disse Robb.
- Uma aberração - disse Greyjoy. - Olha o tamanho da coisa.
O coração de Bran martelava-lhe no peito enquanto abria
caminho através de uma pilha de detritos que lhe alcançava a
cintura, até que chegou ao lado do irmão.
Meio enterrada na neve manchada de sangue, uma forma
enorme atolava-se na morte. Em sua desgrenhada pelagem
cinzenta formara-se gelo, e um tênue cheiro de putrefação
impregnava-a como perfume de mulher. Bran viu de relance
os olhos cegos repletos de vermes, uma grande boca cheia de
dentes amarelados, Mas foi o tamanho da coisa que o fez ficar
de boca aberta. Era maior que seu pônei, com o dobro do
tamanho do maior cão de caça do canil de seu pai.
- Não é aberração nenhuma - disse Jon calmamente. - Isso é
uma loba gigante. Eles crescem mais do que os da outra
espécie.
Theon Greyjoy disse:
- Não é visto nenhum lobo gigante ao sul da Muralha há
duzentos anos.
- Vejo um agora - respondeu Jon.
Bran desviou os olhos do monstro. Foi então que reparou no
fardo que estava nos braços de Robb. Soltou um grito de
deleite e aproximou-se. O filhote era uma minúscula bola de
pelo cinza-escuro, ainda com os olhos fechados. Batia
cegamente com o focinho contra o peito de Robb, procurando
leite nos couros que o cobriam, soltando um pequeno som
lamentoso e triste, Bran estendeu uma mão hesitante.
- Vá lá - disse-lhe Robb, - Pode tocá-lo,
Bran fez um afago rápido e nervoso no filhote e depois se
virou quando Jon disse:
- Ora, veja aqui - seu meio-irmão pôs um segundo filhote nos
seus braços. - Há cinco ao todo - Bran sentou-se na neve e
abraçou a cria de lobo, encostando-a ao rosto. O pelo do
animal era suave e morno.
- Lobos gigantes à solta no reino depois de tantos anos -
murmurou Hullen, o mestre dos cavalos. - Não me agrada.
- É um sinal - disse Jory.
O pai franziu a sobrancelha.
- Isto é só um animal morto, Jory - disse, apesar de parecer
perturbado. A neve rangia sob seus pés enquanto passeava ao
redor do corpo. - Sabemos o que a matou?
- Há qualquer coisa na garganta - disse Robb, orgulhoso de
ter encontrado a resposta mesmo antes de o pai ter
perguntado. - Ali, por baixo da mandíbula.
O pai ajoelhou-se e tateou sob a cabeça do animal. Deu um
puxão e ergueu a coisa para que todos a vissem. Trinta
centímetros de um chifre estilhaçado de veado, com as pontas
partidas, todo vermelho de sangue. Um silêncio súbito caiu
sobre o grupo. Os homens olharam inquietos para o corno,
mas ninguém se atreveu a falar. Mesmo Bran pressentia seu
medo, embora nã